Amanhã o Emmanuel completa 11 meses e, com grande desenvoltura, ensaia seus primeiros tímidos passinhos apoiado no berço, na estante e nas nossa pernas. Para todos os pais, a transformação daquela bolinha humana que é um bebê em um bípede é um motivo de enorme alegria, mas, para nos,os passinhos do Emmanuel são também o resultado de um esforço coletivo.
O nosso baby nasceu com um problema ortopédico que se chama pé torto congênito. No caso do Emmanuel, dizem que ele foi provocado por uma falta de espaço na minha barriga que fez com que posicionasse seu pé de uma forma estranha. Quando ele nasceu e nos deram o diagnóstico, pensei na hora nos sapatos ortopédicos do Forrest Gump e no Curupira. Não era caso para tanto drama, mas o tratamento é intenso. São sessões diárias de fisioterapia - de segunda a sábado- e mais o uso de um curativo ortopédico constante.Nada que desanime o nosso bravo bebê que fez da botinha de acrílico um instrumento de percussão (um brasileiro nato ou quase).
O tratamento ainda continuara por vários meses e talvez alguns anos. Se fosse no Brasil, ele usaria gesso e seria operado. Na França, que é pioneira no tratamento do pé torto congênito, a abordagem é baseada na fisioterapia, que é mais cara e mais trabalhosa, mas estamos felizes de ver os resultados.
Sei que há sempre uma expectativa que o aniversariante chegue andando na sua festinha de 1 ano. Não sei se o Emmanuel vai cumprir a façanha até lá, mas ele bate palmas, sabe apitar e dança sentadinho até com toque de celular. Se não tiver o samba no pé em janeiro, pelo menos conseguirá ser um dublê de mestre de bateria.
Escovas e fraldas
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Orgulho e preconceito

Os recents posts dos blogs de um colega de profissão e de um amigo de infância sobre o preconceito sofrido por seus filhos que são negros me deixaram supertristes. Triste pensar que hoje em 2011 no Brasil, onde pelo menos 50% da população é preta ou parda, o preconceito racial continue a corroer o nosso cotidiano. Triste que algumas famílias ainda considerem um escândalo o seu filho (a) namorar um negro (a). Triste que ainda tenha gente que ache que um negro atrás do volante de um bom carro só pode ser pagodeiro ou jogador de futebol.
Quando era criança, os únicos negros que apareciam na televisão eram escravos ou empregados domésticos. O meu pai, cansado dessas representações toscas, comprava revistas
importadas, principalmente a americana Ebony. Nessas revistas, havia modelos negras e sorridentes e até de casaco de pele, o que muito alimentou a minha imaginação infantil.
O tempo foi passando e fui crescendo sem grandes dramas raciais. Exceto uma ou outra piada sobre o meu cabelo ("Ih, lá vem o leão"). Mas, como eu tinha Diana Ross como padrão de beleza capilar não chegava a ficar realmente ofendida.
Mas, dia desses, eis que o preconceito voltou a bater à minha porta. E é aquela forma de preconceito mais tosca. Ou seja, a da pessoa que acha que não é preconceituosa.
Minha mãe estava com umas amigas no trabalho naquela atividade típica de mãe de mostrar as fotos da filha. Uma das colegas, ao ver a minha foto e a do meu marido, vira para a minha mãe e diz: "Ela é bonita a sua filha, mas tomara que o bebê nasça clarinho igual ao pai, né?".
Minha mãe disse que ficou tão indignada com o comentário que não conseguiu dar uma resposta à altura. Replicou apenas: "Tomara por quê?". Ficou sem resposta.
domingo, 9 de janeiro de 2011
Só se for agora

31 de dezembro por volta das 14h:
Não resisti e decidi fazer uma escova. A última escova de 2010. Eu, com uma barriga de 9 meses, não iria fazer nenhuma balada de Réveillon, mas decidi começar o novo ano com um novo corte de cabelo. Com a chegada do bebê, sabe-se lá quando eu terei tempo de ficar lendo revistas de fofocas sob um secador de cabelo.
31 de dezembro antes da meia-noite:
Decidimos trazer a balada para casa. Estava determinada a entrar 2011 dançando ainda que fosse na sala. Sacamos toda a nossa discoteca caseira de discos de salsa, mas, entre um rodopio e outro, logo depois da meia-noite, senti uma maxicontração e uma sensação de umidade. Eu e o Guillaume trocamos olhares e fomos verificar os sintomas no google. Metade das pessoas dizia que não era nada demais, outra, moça, porém, disse que sentiu a mesma coisa e o bebê nasceu em duas horas. Hmm.
1 de janeiro Meia-noite e uns quebrados:
Ligo para a maternidade e faço meu relato. "Estava dançando salsa quando...". Apesar de ser profissional, senti que a plantonista se controlou para não gargalhar com meu relato que misturava salsa, ingestão irracional de rabanadas e bacalhau. Seguindo recomendações da plantonista, fomos para a maternidade para dar uma espiada.
Chegando na maternidade, a plantonista nos esperava com minha pastinha nas mãos. Ela faz um exame, apalpa daqui e dali e diz que não foi nada: "Apenas um pequeno episódio de incontinência urinária comum no final da gravidez" (momento humilhante da noite número 1). Mas, por via das dúvidas, ela resolve fazer um eletrocardiograma do bebê. Enquanto fico lá ligada a eletrodos diversos, o meu pândego marido tenta fazer um moonwalking usando as sapatilhas cirúrgicas. Eu também queria fazer a mesma coisa, mas as circunstâncias não permitiram. Eu fiquei tentando segurar o riso por medo que uma gargalhada arrebentasse os fios.
Depois de 30 minutos de exame, a enfermeira volta para a salinha. O bebê está em grande forma, merci, diz ela. Mas eu realmente estava com umas contrações meio fortes (embora nada doloridas) e ela me receitou um supositório (momento humilhante da noite número 2). As contrações se vão com o medicamento milagroso e somos liberados para voltar par
a casa. "Vejo vocês em breve!". A enfermeira disse isso e apertou a minha bochecha (oi?)
Well, ainda não foi dessa vez que o cardosinho nasceu, mas foi um bom ensaio geral. Meu cabelo estava brilhante e sedoso e fizemos tudo diretinho como aprendemos no curso. Vamos ver no dia D mesmo.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Qual é a musica?

Participei de um workshop com uma doula. Entre os muitos conselhos de técnicas de massagem para bebês, ela disse que agora, aos 8 meses de gestação, o bebê se mostra espertinho e reconhece sons. Ou seja, mais do que nunca, é hora de soltar a voz para conversar e... cantar. Parece que temos um babê realmente musical. A primeira vez em que ele mexeu a valer eu estava escutando Elvis. Desde então, o King tem sido a trilha sonora da gravidez.
Segundo a doula, não preciso der nenhuma Maria Callas. Posso cantar qualquer melodia simples, inventar letras. O importante mesmo é manter esse "canal de comunicação com o bebê", disse. Opções musicais, aqui em casa, não faltam. O Guillaume tem um grande acervo de discos de grande qualidade, mas, nem todas as musicas são do tipo que dá pra cantar junto e bater palmas. Então, tendo que recorrer apenas ao meu instinto musical para cantar, a escolha do repertório reflete anos escutando 98 FM a caminho da escola.
Na primeira sessão de cantoria programada, tentei começar com um nível mais elevado. Beatles, Nina Simone, Cole Porter. Mas ainda não tinha encontrado o tom desenvolto necessário. Fui me empolgando sozinha. Passei para um sambinha (Aquarela Brasileira), uma Jovelina (Luz do Repente), um Almir Guineto (Mel na Boca) e, do nada, ousei um Depeche Mode (Enjoy the Silence) e fiz um mash up inusitado com Chuva de Prata do Roupa Nova (oi?). Contente com a minha própria performance materno-musical mandei um Wando (Fogo e Paixão), Alcione (Garoto Maroto), Biafra (Sonho de Ícaro) e, sem saber o porquê, cheguei a Agepê (Deixa eu te amar). Nessa hora o bebê, enfim, mexeu. Acho que foi uma tentativa desesperada de me mandar parar. "Pô, mãe, Agepê é esculacho". Parei, né?
Ter um bebê à francesa
Na França, a grande maioria das mães recorre ao sistema público de saúde para ter o bebê. As consultas são mensais, cada mês com uma equipe diferente, e, no dia D, o parto é realizado pela equipe de plantão no hospital. Tudo muito organizado, eficiente, claro, mas falta um certo calor humano. Não que eu queira que o médico me pegue no colo e me chame de "gata", mas, antes mesmo de engravidar, eu queria poder escolher um médico com quem eu pudesse ter uma certa abertura para dialogar. Afinal, não é todo dia que se tem um bebê. Acabei optando, então, por uma maternidade privada. Parte dos gastos é custeado pela seguridade social na forma de reembolso e a outra parte sai do bolsinho dos pais.
Encontrei um bom médico. Vamos chamá-lo de Dr. Coisinho. Ele tem uma ótima foto todo bronzeado no facebook, é poliglota e usa lenços de seda. Ah, o consultório dele tem ótimas revistas de decoração e design. OK, nada disso é um critério essencial, mas me diverte. Mais importante mesmo é que ele é atencioso e pronto para escutar as minhas milhares de perguntas. Na nossa primeira consulta, ao saber que eu era brasileira, ele já foi falando: "Ih, já sei, brasileira, você vai querer uma cesárea , né". Ele depois disse ficar impressionado com a banalização das cesáreas no Brasil. Eu respondi que, muito pelo contrário, eu não queria uma cesárea , mas também não queria um parto de "novela de época". Expliquei: gente gritando, cenas de desespero, improvisação etc. Claro que eu gostaria de ter um parto lindo e natural sem anestesia, sem ocitocina sintética e sem intervenções desnecessárias. Mas procuro não idealizar ter um parto como o da Gisele Bündchen que teve seu filho "sem dor", segundo ela, toda cheia de glamour na banheira da sua casa. Vou tentar ter um parto realmente natural - o médico está sabendo da minha disposição- mas, se não der, pelo menos eu sei que tentei e que não fui totalmente ignorante para a sala de parto.
Ah, é importante lembrar que o médico aqui só entra em cena mesmo na reta final mesmo. Todo o trabalho é acompanhado por uma enfermeira especializada em obstetrícia que também é a responsável pelo curso de preparação ao parto. Para ela, ligamos no momento das primeiras contrações, para ela dizemos se queremos uma peridural ou não, é ela que acompanha hora a hora todo o processo e é ela também que passa todas as dicas para aliviar de forma natural a dor. Então, tão importante quanto ter um bom médico, é ter uma boa enfermeira. A minha, vamos chamá-la de enfermeira coisinha, é animada, também aberta ao diálogo e usa muitas jóias de ouro.
Contrariamente ao fenômeno citado no blog da minha amiga Paloma, na França a cesárea programada é coisa realmente rara. Os bebês de todas as classes sociais continuam a nascer no Natal ou no Ano Novo se a natureza assim o quiser. O meu médico, aliás, me disse que ele é o campeão dos bebês do dia 1° de janeiro. Segundo a última visita, o Cardosinho, apesar do seu tamanho avantajado, não deve nascer no período das festas. Mas, seguindo os conselhos da enfermeira, eu e o Guillaume começamos o nosso check-list* das coisas que devemos levar para a maternidade. A importância de estar preparada.
*-uma camiseta para eu usar no parto (vou levar uma preta, porque preto emagrece, né)
-um gorrinho pro bebê, um body de manga comprida e uma mantinha para os momentos após o nascimento
-sutiãs de amamentação
-pijamas para mim e para o bebê
-objetos de higiene pessoal (Na lista da maternidade eles dizem que podemos incluir maquiagem. Oba! Coloquei discretamente um corretivo de olheiras e um blush e toneladas de leave-in para o cabelo)
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Difícil é o nome

Hoje foi o dia da terceira e derradeira ultrassom. Temos um "belo bebê", diz o médico, de 2,5 kg (fiquei assustada) e ainda falta mais de um mês para a data prevista para o parto. Em suma, o bebê está quase todo prontinho para brilhar, órgãos funcionando corretamente, uma bocona de Mick Jaagger bem visível, na boa posição com a cabeça para baixo e, como ele é grande e não há muito espaço para manobras radicais, assim ele deve ficar até o dia D.
Em relação os preparativos, ele já tem um enxovalzinho para os primeiros dias todo seu, lavado e passado. Os acessórios como tesourinha, termômetro etc também já estão prontos, cômoda montada, listinha de presentes depositada na Galeries Lafayette, só falta... o nome!
Eis o dilema. Eu nunca tive um nome-fetiche de bebê na cabeça. Quando soube que estava gravida fiquei tão empolgada com todo o resto que nem me importei com o nome. Mas agora o tempo está passando rapidinho e o bebê continua sem nome oficial. Apelidos, ele já tem muitos: Kieffersson, Mustafà, Raysson e Cillaume (sugestão da minha amiga Nina). Para chegarmos ao nome ideal, até elaboramos uma lista de vários critérios para serem levados em consideração:
1-Um nome que soe bem em português e em francês
2-Um nome que não seja muito batido
3-Um nome que não renda trocadilhos infames ou rimas bizarras nas duas línguas
4-Um nome meio atemporal. Ou seja, que não esteja na moda nem faça o pobre parecer personagem de um romance do século 19
5-Um nome que combine com a cara dele
6-Um nome que não seja muito étnico: nem indígena nem idade média
7-Um nome que não seja monossilábico, tipo Luc.
Com esses critérios em mente, estamos ainda à escolha de um nome bacana. Joachim (escrito assim mesmo à francesa) esteve na liderança por meses a fio, mas enjoamos. Gostamos de Francisco, mas aqui vai virar "franciscô", o que fez o nome perder grande parte do seu charme e da competitividade. Eu gosto de Henry, mas o Guillaume diz que é nome de velho (não respeita, logo, o critério meio atemporal). Eu também gosto de Tristan, mas esse desrespeita os itens 3 e 6.
Meu pai enviou uma lista de nomes, entre eles Régis e Wagner. Minha mãe vota em nomes do Antigo Testamento, estilo Abraão, Isaque, Moisés (nas versões francesa ou portuguesa).
Sugestões? Propostas de bolão?
Até janeiro, escolheremos.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Um outro cabelo é possível

Desde de dezembro de1982, data da minha primeira escova aos seis anos de idade, eu já fiz de tudo no meu cabelo: escova progressiva, chapinha, henna, henê, touca, relaxamento (adoro o eufemismo), defrisagem francesa etc. Há anos meus pobres cabelos nunca tiveram um momento de paz. Vivi por anos como uma espécie de Jason Bourne da escova. As minhas viagens eram friamente planejadas (sempre tinha o endereço do cabeleireiro mais perto do hotel) Já cheguei a pedir um transformador de voltagem em um hotel na Jordânia para adaptar à minha chapinha e devo confessar que fiz escova e/ou comprei produtos para cabelo em todos os países que visitei. Já corri pela av. Paulista num dia de chuva com uma sacola de supermercado na cabeça para não estragar a escova. Enfim, uma vida de muitos constrangimentos capilares.
Mas, eis que fiquei grávida. Ao lado da felicidade de ter um bebê, vivi momentos de tensão ao imaginar minha vida sem meus experimentos cosmético-capilares. Sem escovas e contando apenas com a ajuda da natureza e de produtos sem parabeno, tinha pesadelos nos quais me imaginava como uma espécie de Quasimodo sendo perseguida com cabelos desgrenhados por populares com tochas pelas ruas de Paris.
Passado o impacto inicial, revolvi fazer as pazes com os meus cabelos. E ... surpresa! Nunca antes da história desse país meus cabelos estiveram tão sedosos e brilhantes. Mesmo sem escova, mesmo após a praia. Merci, hormônos da gravidez! Merci, Mireille e Bianca, minhas cabeleireiras que se desdobraram para achar produtos naturais para os meus cabelos, que incluem manteiga de karité vinda especialmente da Costa do Marfim e banhos de óleo de Argan. Comprei também alguns cosméticos orgânicos, mas nem todos com excelentes resultados, admito.
Já na reta final da gravidez, voltei a usar shampoos e cremes de marcas tradicionais do mercado, mas para a alegria do meu marido que sempre incentivou meu cabelo black power, me sinto muito mais feliz com meu cabelo volumosão natural. Esse, aliás, foi o primeiro presente que meu filhinho que vai chegar logo logo me deu. Estou em paz com meus cabelos. Viva!
p.s: Claro que ainda faço escovas, mas num ritmo bem mais zen.
Assinar:
Postagens (Atom)